Um livro para ler junto

A Caixa do
Não Foi Nada

Uma história sobre aquilo que cresce quando ainda não encontra palavras.

Role devagar. A história acontece sem interrupções.
Pai e filha, ilustrados, observam juntos uma caixa aberta e luminosa.
Para crianças, famílias e os adultos que escolhem ficar perto.
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Antes da história

Leandro e Cinthia ilustrados juntos no Espaço Eros.

Prefácio

Para Cinthia.

À Cinthia, que me ensina todos os dias que compreender aquilo que acontece dentro de uma pessoa também é uma forma de salvá-la.

Sua dedicação à Psicologia e seu entusiasmo profundo pela saúde mental infantil mudaram minha maneira de olhar para as pessoas, para a infância e para o sofrimento. Ao seu lado, aprendi que um comportamento quase nunca conta a história inteira e que, por trás de muitas respostas curtas, existe algo que ainda procura linguagem.

Durante muitos anos, trabalhei no Corpo de Bombeiros de São Paulo, inclusive em atividades de resgate e salvamento com motocicletas. Nos últimos anos dessa trajetória, aprofundei minha experiência em intervenções com pessoas que atravessavam crises suicidas.

Carrego com gratidão a experiência pessoal de ter conduzido com segurança todas as ocorrências dessa natureza que estiveram sob minha intervenção imediata, sem perder nenhuma pessoa durante esses atendimentos. Não escrevo isso como medalha, promessa ou comprovação científica. Escrevo porque cada uma daquelas conversas também me transformou.

A emergência acontecia diante de mim naquele instante. Entretanto, ao ouvir aquelas pessoas, muitas vezes percebia que suas histórias não haviam começado ali. Algumas carregavam dores antigas, silêncios prolongados e experiências que, por muito tempo, não encontraram lugar para ser contadas.

Enquanto você estudava e cuidava do que acontece dentro das pessoas, eu passava anos chegando a situações em que algo já havia se tornado urgente por fora. Foi do encontro dessas duas trajetórias que nasceu também minha participação na construção do Espaço Eros e a pergunta que acompanha este livro: e se aprendêssemos a falar sobre aquilo que dói muito antes de a dor ficar grande demais?

Este livro nasceu da sua sabedoria, da nossa convivência e de uma frase que se tornou parte da nossa família: transformar problemas em probleminhas. Não para diminuir a dor, mas para descobrir, juntos, por onde começar.

Leandro Francisco

Projeto independente

Uma história de Leandro Francisco,
com o apoio de Cinthia Catellan.

Nascida do encontro entre duas trajetórias de cuidado e de uma frase que vive dentro de uma família.

A história

A caixa começa pequena.

Depois, cresce entre os silêncios. Leia em voz alta e deixe espaço para a criança observar cada imagem.

Bia sentada em seu quarto ao lado de uma pequena caixa azul.01
Um pedacinho da caixa

Bia tinha uma caixa de sapatos.

Pequena, azul, quase vazia.

Nela, guardava botões, barbantes e coisas que ainda não tinham nome.

Quando alguém perguntava "Aconteceu alguma coisa?", Bia respondia:

"Não foi nada."

E colocava o nada lá dentro.

A caixa azul de Bia guarda um papel amassado.02
Um pedacinho da caixa

Na segunda, seu desenho rasgou bem no meio.

Bia sentiu o rosto quente e um bolo na garganta.

A professora perguntou se ela queria conversar.

"Não foi nada", disse Bia.

Dentro da caixa apareceu um papel todo amassado.

Bia observa a caixa azul, agora maior e mais pesada.03
Um pedacinho da caixa

Na terça, a brincadeira começou sem ela.

Bia ficou perto do muro, riscando o chão com o sapato.

Em casa, o pai percebeu seu silêncio.

"Não foi nada."

Dentro da caixa apareceu uma pedra fria, com o peso exato daquele recreio.

A caixa azul cresceu e deslocou alguns brinquedos do quarto.04
Um pedacinho da caixa

Na quarta, Bia tentou contar uma coisa importante.

Mas as palavras se embolaram antes de sair.

"Não foi nada", sussurrou.

Dentro da caixa nasceu um nó.

A caixa, que antes cabia debaixo da cama, empurrou um urso, três livros e quase todos os carrinhos.

Bia parece pequena diante da caixa que ocupa o quarto.05
Um pedacinho da caixa

Quanto mais a caixa crescia, menos espaço sobrava para Bia.

Ela brincava menos.

Falava baixinho.

Fechava a porta.

E começou a pensar que, se abrisse a caixa, tudo ficaria ainda maior.

Talvez fosse melhor não dizer nada.

Nada.

O pai de Bia percebe a caixa e se aproxima com cuidado.06
Um pedacinho da caixa

O pai de Bia era bombeiro.

Ele chegava depressa quando alguém chamava, cruzava a cidade de motocicleta e conhecia muitos caminhos de resgate.

Naquela noite, encontrou a filha quieta e a porta quase presa pela caixa.

Mas Bia não havia chamado.

O pai guarda suas ferramentas e se senta no chão.07
Um pedacinho da caixa

Ele trouxe a lanterna, a corda, a chave e o alicate.

A caixa não tinha fechadura.

Não tinha dobradiça.

Nem uma tampa que pudesse ser forçada.

O pai guardou as ferramentas.

Algumas coisas não se abrem com pressa.

Bia mostra um papel amassado ao pai por uma fresta da caixa.08
Um pedacinho da caixa

Então, ele tirou as luvas e sentou no chão.

"Você não precisa abrir tudo", disse.

"Pode me mostrar só um pedacinho. Pode desenhar. Pode apontar. Ou eu posso apenas ficar aqui."

Por uma fresta, Bia empurrou o papel amassado.

Bia e o pai observam juntos o papel amassado e a caixa aberta.09
Um pedacinho da caixa

"Meu desenho rasgou. Eu senti vergonha. Minha cabeça disse que todos ririam de mim."

"Todos riram?", perguntou o pai.

Bia lembrou da amiga que guardara um lápis para ela.

"Nem todos."

O papel continuava rasgado.

Mas a história que a cabeça contou já não ocupava o mundo inteiro.

Bia e o pai permanecem juntos diante da grande caixa azul aberta.10
Um pedacinho da caixa

Depois vieram a pedra e o nó. Um por vez.

Nem tudo ganhou nome. Nada sumiu.

Mas cada coisa encontrou um começo: um abraço, uma conversa, um novo desenho.

"Vamos transformar esse problema em probleminhas?"

"Ele ainda é grande", disse Bia.

"Então cuidamos do menor pedaço."

A caixa não ficou vazia.

Ficou aberta.

A caixa ficou aberta

Algumas histórias terminam.
Esta abre uma conversa.

O conteúdo a seguir foi escrito apenas para adultos. Ele reúne perguntas, uma atividade familiar, cuidados de segurança e a ciência que inspirou a segunda camada do livro.